Árvore de Um Amor Inalcançável, de Ricardo Miguel Nogueira Guerra





A escuridão enegrecia-lhe os raquíticos ossos e o solo, abrasava-lhe os pés negros. Os dias
longos e imperdoáveis decorriam sobre um Nada, um vazio. Sem ele. 

 Conhecera João, na África que outrora partilharam, e através de sua união, encontraram
algo ainda absurdo numa pobreza e numa dor tão negra quanto a fome: a felicidade, o amor em suas
almas, os olhares cúmplices, e o otimismo, apenas condicionados por uma inocência tão perigosa
como uma droga, uma rosa dolorosa, um fogo tão intenso - que, tão cruelmente se desfez... Amá-lo
ou esquecê-lo? - era o dilema que, após tantos longos e imperdoáveis anos, sobrevivia na mente de
Verónica, que se assumia cada vez mais certa do destino que sabia aguardá-la e, que, em tanto
tempo, a tornara infeliz e frágil. Apenas desejava que ele nunca tivesse existido, ou que nunca se
tivessem encontrado, para que a solidão fosse algo melhor e que a morte não incluísse quaisquer
remorsos por se perderem: ele vivendo na Terra e ela, no Além, era algo totalmente indesejado -
pois aí o mundo que criaram tão docemente, terminaria sem cessar, e nada mais existiria para além
da tentação de jamais perdoar Deus e destruir qualquer crença que alguma vez lhe tivessem
outorgado. E aniquilar-se-iam. Interiormente. Para sempre. Pois sem Deus nada mais existe do que
a Morte Suprema. E um ele. E um ela. Nunca eles.

 Apenas a árvore onde cravaram seu intenso amor, sobrevivia à dor que a ausência de
esperança acerca do insólito destino provocava. Era uma árvore frondosa, de tronco robusto
delimitada por um verde imenso e, que de dia, se tornava mais esfuziante e mais brilhante do que
muitas outras que o Homem já alguma vez observara. Mas nenhuma da beleza lhe recriava a
felicidade que tivera até então. Sabia que nunca compreenderia o injusto mundo em que nascera e,
também ela, nunca perdoaria os sentimentos que esse mesmo lhe provocara.
 Relembrava ainda o dia em que a vida os unira: A incansável precipitação encharcava-lhe as
folhas e preenchia-lhe as salientes raízes e a solidão que o clima criava. Apenas eles nesse dia -
apenas o amor de ambos superava as físicas dificuldades. Nenhuma palavra existia nesse momento,
nenhum som era necessário para a realidade que ambos possuíam. Verónica, envolveu em sua mão,
uma pequena pedra que encontrara no caminho até ao ser com que sonhara todas as noites.
Dirigiram-se à árvore e, aí roçaram a pequena porção de rocha que guardaram. Escreveram,
simplesmente: João e Verónica. Amor eterno.

 E hoje ele, João, viria. Verónica pressentia-o. Pressentia que ele a amava sem quaisquer
tréguas e que a visitaria. Que, de novo, se acolheria no solo de tantos anos residente em África, no
calor escaldante, no mirar das modestas casas que se apresentavam dignamente diante de seu ser, de
sua vida. Apenas por um momento com ela, somente para recordar o que um dia foram.
A comoção penetrou-lhe no ser assim que confirmou a vinda do ainda pequeno rapaz. Sim.
Trouxera consigo a expressão incontornável de uma vida controlada por algo semelhante a um
amargo vazio. No pequeno sorriso, denotava-se uma felicidade ligeiramente consumida pelas
recordações de um infeliz passado.
 Verónica, ignorou-lhe os passos: Não tencionava voltar a mirá-lo se jamais poderia voltar a
tê-lo.

 Ele, o intrépido visitante, sentou-se então ao lado da mulher que, apesar de tudo, ainda sabia
amar, e recordou o quão bela ela era - cabelos loiros, esvoaçavam no vento que apenas uma fé
imensa recriava na sua quase-vida, o fato que usava, apegara-se ao magro corpo e os azuis olhos,
rebrilhavam na tristeza profunda que as olheiras indicavam. Muitos dos seus órgãos, já há muito
tinham sido levados pelo vento, e a lepra, que de tudo a isolara, piorava cada vez mais.  Colocou-lhe a mão na face, ela bruscamente o rejeitou: não valia a pena senti-lo, se não o
poderia tocar.
 O vento começara a soprar, e, encorajado pelo escassear do tempo, avançou - agarrou-lhe o
tronco, acariciou-lhe o pescoço.
 Ela consentiu. E o mirou. E ele já não era igual: o corpo que outrora lhe tocara a pele
tornara-se uma magreza excessiva e os músculos indefiníveis, a face sorridente com que a
admirava, tornara-se um vácuo imenso de vagas emoções, o olhar desaparecera-lhe entre um desejo
imenso e incontrolável de destruir a saudade e as memórias que possuía. Por (falta) (d)ela...
 O solo desaparecera-lhes de súbito, e o sentimento de se terem, voltara sem qualquer
hipótese de cessar - os corações (esses insanos) palpitavam e uma vontade de se amarem
novamente, nasceu efusivamente. Mas mantiveram-se mudos, permitindo que as lágrimas surdas
lhes escorressem pelo rosto. João tomara então, a imensa e carente coragem de envolver em seus
braços a integridade de Verónica: O olhar fulgente e simultaneamente penoso disse-lhe a palavra
que comandara suas vidas e que, a boca mantinha cerrada: "Não."
Porque nada mais existe na vida do que a palavra Não, o termo Nunca e o ousado desejo de
quebrar os limites do corpo.

 A dor e a tentação de de novo serem, soavam alternadamente no seu interior, e mil
hesitações, apareciam também, tentando parar a paixão que para sempre unira os seus imensos
destinos.

 Afastaram-se, procurando algum falso consolo na tinta desbotada do quarto onde, agora,
ambos se encontravam e cerraram os olhos, sentindo a vida que escolheram: apesar de tudo, ambos
tinham a certeza da realidade em que escolheram penetrar, sem bem o saberem. Levantaram-se,
sincronizados ainda petrificados pela coragem que obtiveram de sequer efetuarem esse tão singelo
movimento, e as lágrimas recolheram-se na última felicidade que, sem saberem, decidiram.
Miraram, por uma vez, a madeira que marcara suas vidas e, como que lhe agradecendo por tudo o
que foi para eles, encararam a janela, pela primeira vez, através de um sorriso. E, finalmente se
abraçaram. Sem quaisquer tréguas. Recordaram os tempos em que diziam ser Loucos Eternos e
Inseparáveis e reviveram o que a verdade dos sentimentos, que ainda sobreviviam ao tempo e à
dolorosa vida, lhes indicava sem qualquer hesitação.

 A escuridão terminou. A árvore foi retirada do local, pois a família de ambos o decidiu. E a
dor deles também terminou. Para toda a eternidade. 
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